Sim. É possível ter placas nas artérias do coração sem sentir absolutamente nada.
A aterosclerose pode se desenvolver lentamente ao longo de anos, sem causar dor no peito, falta de ar ou qualquer outro sintoma.
Em muitos casos, a doença só é descoberta durante uma avaliação preventiva ou em exames realizados por outro motivo.
No início, essas placas podem ser pequenas e não prejudicar significativamente a passagem do sangue.
O coração continua recebendo oxigênio adequadamente. O paciente não sente nada.

É justamente por isso que podemos falar em aterosclerose silenciosa ou subclínica.
Aterosclerose silenciosa é a presença de placas nas artérias sem sintomas aparentes. Uma pessoa pode ter placas nas coronárias mesmo sem dor no peito ou falta de ar. A avaliação do risco cardiovascular e, em pacientes selecionados, exames como escore de cálcio ou angiotomografia podem ajudar a identificar a doença.
O problema é que ausência de sintomas não significa necessariamente ausência de doença.
Uma pessoa pode descobrir a aterosclerose apenas durante uma avaliação preventiva ou depois de realizar algum exame por outro motivo.
Em outros casos, infelizmente, o primeiro sinal de que existe doença nas coronárias pode ser um evento cardiovascular.
Por isso, a prevenção moderna tenta responder a uma pergunta diferente de simplesmente:
“Minha artéria está entupida?”
A pergunta é:
“Existe aterosclerose e qual é o meu risco cardiovascular ao longo dos próximos anos?”
Por que procuro identificar a doença antes dos sintomas?
Dr. Pedro Perillo — Cardiologista e Cardiologista Intervencionista em Goiânia
Minha atuação envolve tanto a prevenção e investigação da doença coronariana quanto seu tratamento através da Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista.
Realizei minha formação em Cardiologia e posteriormente em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista pela Universidade Federal de São Paulo — UNIFESP, onde também concluí meu Mestrado em Cardiologia.
Sou especialista titulado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e pela Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI).

Ao longo da minha formação e prática profissional, já realizei mais de 5.000 procedimentos em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, incluindo cateterismos, angioplastias e procedimentos cardiovasculares de diferentes níveis de complexidade.
Tratar uma obstrução importante é parte do meu trabalho.
Mas existe algo ainda melhor:
identificar o risco cardiovascular antes que aquela pessoa chegue à sala de Hemodinâmica por causa de um infarto.
A Cardiologia Intervencionista me permite enxergar diariamente as consequências finais da aterosclerose.
A prevenção tenta agir muitos anos antes delas.
O que é aterosclerose?
As artérias não são simplesmente tubos por onde o sangue circula.
Elas possuem uma parede biologicamente ativa.
Ao longo da vida, fatores genéticos, colesterol elevado, pressão arterial, diabetes, tabagismo e outros mecanismos podem favorecer o depósito e a retenção de partículas lipídicas dentro dessa parede.
Com o tempo, ocorre uma resposta inflamatória e pode se formar uma placa de aterosclerose.

Inicialmente, essa placa pode ser discreta. Depois pode aumentar.
Algumas placas desenvolvem calcificação. Outras permanecem predominantemente não calcificadas.
Eventualmente, uma placa pode crescer o suficiente para provocar estreitamento relevante da artéria.
Mas existe outro fenômeno muito importante: uma placa pode sofrer ruptura e desencadear a formação súbita de um coágulo.
Esse mecanismo é exatamente o que acontece na síndrome coronariana aguda e infarto.
É justamente por isso que aterosclerose e “porcentagem de obstrução” não são exatamente a mesma coisa.
Posso ter uma placa de 20% ou 30% e estar doente?
Sim.
Essa é uma distinção fundamental.
Imagine que uma angiotomografia das coronárias mostre uma pequena placa provocando estreitamento de apenas 20% ou 30%.
Provavelmente aquela lesão não está comprometendo significativamente o fluxo sanguíneo.
Isso significa que o paciente precisa de stent? Não.
Mas significa que a coronária é completamente saudável? Também não.
A presença da placa demonstra que já existe aterosclerose coronariana.
É diferente dizer: “não existe obstrução significativa”
e dizer: “não existe doença coronariana.”
O primeiro pode ser verdadeiro enquanto o segundo é falso.
Por que algumas pessoas não sentem nada?
Os sintomas da doença coronariana geralmente aparecem quando existe desequilíbrio entre a quantidade de oxigênio que o músculo cardíaco precisa e aquilo que as coronárias conseguem fornecer.
Se uma placa ainda não reduz significativamente o fluxo sanguíneo, não existe motivo para necessariamente provocar dor.
Além disso, a aterosclerose costuma evoluir lentamente.
Durante anos, o organismo pode adaptar-se à presença da doença.
Por isso é perfeitamente possível existir aterosclerose sem:
- dor no peito;
- falta de ar;
- cansaço;
- palpitações;
- qualquer outro sintoma.
A ausência de dor não funciona como exame das coronárias.
Quem tem maior risco de aterosclerose silenciosa?
O risco não depende de um único fator.
Ele resulta da combinação de genética, idade e exposição a fatores de risco ao longo da vida.

Entre os principais estão:
- colesterol LDL elevado;
- hipertensão arterial;
- diabetes;
- tabagismo;
- doença renal;
- obesidade e alterações metabólicas;
- sedentarismo;
- histórico familiar de doença cardiovascular precoce;
- idade;
- algumas alterações genéticas do metabolismo lipídico.
Também existem fatores adicionais capazes de modificar a estimativa de risco.
Um exemplo é a lipoproteína(a), ou Lp(a).
A diretriz ACC/AHA de dislipidemia de 2026 recomenda sua dosagem pelo menos uma vez para identificar pessoas com risco cardiovascular aumentado.
Por isso, duas pessoas da mesma idade e aparentemente saudáveis podem apresentar riscos completamente diferentes.
Colesterol normal significa que não tenho aterosclerose?
Não necessariamente.
O colesterol atual representa uma parte da história.
A aterosclerose é consequência de exposição acumulada ao longo do tempo.
Uma pessoa pode ter apresentado colesterol elevado durante muitos anos e apresentar hoje números melhores.
Outra pode ter LDL aparentemente pouco alterado, mas carregar fatores genéticos ou outros elementos de risco importantes.
Além disso, valores laboratoriais devem ser interpretados de acordo com o risco daquela pessoa.
Não existe um único nível de LDL ideal para todo mundo.
A diretriz de dislipidemia de 2026 voltou a enfatizar metas de LDL e colesterol não-HDL diferentes conforme a categoria de risco e a intensidade necessária de prevenção.
[LINK FUTURO: Colesterol alto: quando dieta e exercício não são suficientes?]
Como descobrir aterosclerose em alguém sem sintomas?
Aqui precisamos ter cuidado.
A resposta não é fazer uma tomografia em todas as pessoas.
Primeiro avaliamos:
Idade;
Pressão arterial;
Colesterol;
Glicemia;
Tabagismo;
Histórico familiar;
Doenças existentes;
Hábitos de vida;
A partir daí, estimamos o risco cardiovascular.
Em algumas pessoas, essa avaliação já fornece informação suficiente para determinar a estratégia preventiva.
Em outras, permanece uma dúvida.
É nesse cenário que determinados exames podem acrescentar informação.
Escore de cálcio: procurando sinais de aterosclerose
O escore de cálcio coronariano é uma tomografia realizada geralmente sem contraste que quantifica cálcio presente nas artérias coronárias.
Quando encontramos cálcio em uma coronária, sabemos que existe aterosclerose.
Quanto maior a carga de cálcio, maior tende a ser a carga de doença aterosclerótica e maior pode ser o risco cardiovascular.

Mas ele não é um exame que toda pessoa precisa fazer.
A diretriz ACC/AHA de 2026 recomenda o uso seletivo do escore de cálcio para ajudar a reclassificar o risco, citando seu emprego a partir dos 40 anos nos homens e 45 anos nas mulheres em contextos apropriados.
A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025 também incorpora achados de aterosclerose subclínica, incluindo determinados níveis de cálcio coronariano, à estratificação do risco cardiovascular.
[LINK FUTURO: Escore de cálcio: o que significa 0, 100, 300 ou 400?]
E a angiotomografia das coronárias?
A angiotomografia coronária responde a perguntas diferentes.
Ela utiliza contraste e permite visualizar as artérias coronárias, identificando tanto placas calcificadas quanto placas não calcificadas e estimando possíveis estreitamentos.
Isso significa que uma pessoa pode apresentar escore de cálcio baixo ou até zero e ainda assim possuir, em determinados contextos, placa não calcificada.
Mas novamente, isso não significa que todos os pacientes assintomáticos deveriam fazer angiotomografia.
A ESC recomenda que a escolha da investigação seja baseada na probabilidade clínica e nos fatores de risco; em indivíduos com probabilidade muito baixa ou baixa, testes adicionais podem não ser necessários.
Descobri uma placa. Preciso fazer cateterismo?
Na maioria das vezes, não simplesmente por existir uma placa.
Uma placa discreta encontrada em um paciente assintomático geralmente não é indicação automática de cateterismo.
O principal impacto da descoberta pode estar na prevenção.
Passamos a saber que a aterosclerose não é apenas uma possibilidade estatística.
Ela já está presente.
Isso pode mudar a forma como conduzimos:
Colesterol
Pressão arterial
Diabetes
Tabagismo
Atividade física
Peso
Alimentação
Medicamentos preventivos
O cateterismo é reservado para situações em que existe uma pergunta invasiva específica ou suspeita de doença relevante que possa modificar a estratégia de tratamento.
Descobrir uma placa significa precisar de stent?
Não.
Essa talvez seja a mensagem mais importante.
Aterosclerose não é sinônimo de angioplastia.
Se identificarmos pequenas placas espalhadas pelas coronárias, colocar stents em todas elas não trata a doença.

O stent é utilizado para tratar determinadas obstruções quando existe uma indicação específica.
A aterosclerose, por outro lado, precisa ser tratada no organismo inteiro.
Controlar colesterol e os demais fatores de risco ajuda a diminuir a progressão da doença e reduzir a ocorrência de eventos cardiovasculares.
Uma placa pequena pode causar infarto?
Essa pergunta costuma surpreender.
Uma obstrução muito importante pode provocar angina porque reduz o fluxo de sangue.
Mas o mecanismo de um infarto frequentemente envolve instabilidade ou ruptura de uma placa seguida pela formação de trombo.
Por isso, não devemos imaginar aterosclerose como uma tubulação que simplesmente vai fechando de 10% em 10% até chegar a 100%.
A biologia da placa também importa.
É justamente essa característica que torna tão importante tratar a aterosclerose como uma doença e não simplesmente como uma porcentagem encontrada em um exame.
Dá para fazer a aterosclerose desaparecer?
O objetivo mais importante não é prometer que todas as placas vão desaparecer.
É reduzir drasticamente a probabilidade de elas causarem problemas.
Com controle adequado dos fatores de risco e tratamento quando indicado, podemos reduzir progressão, favorecer estabilização das placas e diminuir o risco cardiovascular.
Isso pode envolver:
- alimentação adequada;
- atividade física regular;
- abandono do tabagismo;
- controle da pressão arterial;
- controle do diabetes;
- redução apropriada do LDL;
- controle do peso;
- uso correto das medicações prescritas.
O tratamento deve ser proporcional ao risco.
Uma pessoa com risco baixo não necessariamente precisa da mesma estratégia de alguém que já apresenta aterosclerose documentada.
A melhor hora de descobrir doença coronariana é antes do primeiro evento
Existe uma diferença enorme entre descobrir uma placa durante uma avaliação preventiva e descobrir a doença depois de um infarto.
Isso não significa realizar exames indiscriminadamente.
Significa fazer prevenção de maneira inteligente.
Primeiro avaliamos o risco.
Depois identificamos quem realmente pode se beneficiar de investigação adicional.
E, quando encontramos aterosclerose, tratamos o paciente de acordo com o significado daquele achado.
A pergunta não deve ser:
“Tenho alguma placa?”
Ela deve ser:
“Qual é o meu risco e o que posso fazer hoje para diminuí-lo?”
Porque a aterosclerose pode permanecer silenciosa durante muitos anos.
Mas prevenção não precisa ser silenciosa.
Se você possui fatores de risco cardiovascular, histórico familiar de infarto precoce ou deseja compreender melhor seu risco cardiovascular, uma avaliação individualizada pode ajudar a definir quais exames e medidas preventivas realmente fazem sentido para o seu caso.
Dr. Pedro Perillo
Médico Cardiologista
Especialista em Cardiologia e Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista
CRM-GO 20317 | RQE 15.681 | RQE 17.630
Perguntas Frequentes
É possível ter coronária obstruída sem sentir nada?
Sim. A aterosclerose pode permanecer assintomática durante anos, especialmente quando as placas ainda não provocam limitação importante do fluxo.
Aterosclerose silenciosa é perigosa?
A presença de aterosclerose indica doença vascular e pode modificar o risco cardiovascular, mesmo sem sintomas.
Qual exame detecta placas nas coronárias?
Dependendo do objetivo, escore de cálcio e angiotomografia coronária podem fornecer informações sobre aterosclerose. A indicação deve ser individualizada.
Escore de cálcio zero exclui completamente aterosclerose?
Não necessariamente. O escore avalia cálcio coronariano e não foi desenvolvido para visualizar diretamente todas as placas não calcificadas.
Encontrar uma placa significa precisar de stent?
Não. A maioria das pequenas placas não é tratada com angioplastia. O tratamento depende da repercussão da lesão e do contexto clínico.
Referências Bibliográficas
Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, 2025.
ACC/AHA et al. — Guideline on the Management of Dyslipidemia, 2026.
European Society of Cardiology — 2024 Guidelines for Chronic Coronary Syndromes.
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