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Dr. Pedro Perillo – Cardiologista Intervencionista em Goiânia – GO

Você provavelmente já mediu colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos.

Mas existe uma boa chance de nunca ter dosado a lipoproteína(a).

lipoproteína(a)

Também chamada de Lp(a), ela permaneceu durante muitos anos praticamente fora da rotina da maioria dos check-ups. Isso está mudando.

Hoje sabemos que níveis elevados de Lp(a) estão associados a maior risco de aterosclerose, infarto, AVC e outras manifestações da doença cardiovascular aterosclerótica, mesmo quando outros fatores de risco parecem razoavelmente controlados.

E existe uma característica que torna esse marcador particularmente interessante:

a quantidade de Lp(a) que uma pessoa possui é determinada principalmente pela genética.

Isso significa que alguém pode se alimentar bem, praticar exercícios, não fumar e ainda assim apresentar uma Lp(a) muito elevada.

Por isso, as recomendações atuais passaram a dar muito mais importância à sua dosagem.

A diretriz norte-americana de dislipidemia publicada em 2026 recomenda que a Lp(a) seja medida pelo menos uma vez, justamente para identificar pessoas que apresentam um risco cardiovascular adicional que poderia passar despercebido em uma avaliação convencional. 

Por que passei a olhar com mais atenção para a Lp(a)?

Dr. Pedro Perillo — Cardiologista e Cardiologista Intervencionista em Goiânia

Minha atuação profissional envolve tanto a prevenção e investigação da doença coronariana quanto seu tratamento por meio da Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista.

Realizei minha formação em Cardiologia e posteriormente em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista pela Universidade Federal de São Paulo — UNIFESP, instituição onde também concluí meu Mestrado em Cardiologia.

Sou especialista titulado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e pela Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI).

Dr Pedro Perillo

Ao longo da minha formação e prática profissional, já realizei mais de 5.000 procedimentos em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, incluindo cateterismos, angioplastias e procedimentos cardiovasculares de diferentes níveis de complexidade.

E existe uma situação que chama atenção na prática:

algumas pessoas chegam à doença coronariana importante aparentemente “cedo demais”.

Às vezes encontramos infarto ou aterosclerose significativa em pacientes relativamente jovens, sem tabagismo e sem um LDL que, isoladamente, parecesse explicar toda aquela carga de doença.

É justamente nesses cenários que fatores hereditários como a lipoproteína(a) ajudam a compreender melhor o risco cardiovascular.

Quanto mais cedo identificamos esse risco, maior é a oportunidade de agir antes que seja necessário tratar suas consequências.

Afinal, o que é lipoproteína(a)?

Apesar do título deste artigo chamá-la de “colesterol que muita gente nunca mediu”, tecnicamente a Lp(a) não é simplesmente mais um tipo de colesterol.

Ela é uma partícula lipoproteica.

Sua estrutura lembra uma partícula de LDL, contendo apolipoproteína B, mas existe uma proteína adicional ligada a ela chamada apolipoproteína(a).

LpA

Essa diferença aparentemente pequena modifica seu comportamento biológico.

A Lp(a) possui propriedades relacionadas à aterosclerose e ajuda a explicar por que concentrações elevadas estão associadas a maior risco cardiovascular.

Em outras palavras, podemos pensar nela como mais uma peça do quebra-cabeça que determina quanto risco aterosclerótico uma pessoa acumula ao longo da vida.

Lp(a) alta é genética?

Predominantemente, sim.

A concentração de Lp(a) é fortemente determinada por variações no gene LPA.

Por isso, seus níveis tendem a permanecer relativamente estáveis ao longo da vida e sofrem muito menos influência da alimentação e dos exercícios que o colesterol LDL ou os triglicerídeos. A literatura contemporânea considera a Lp(a) um fator de risco cardiovascular geneticamente determinado. 

Isso gera uma consequência importante.

Imagine duas pessoas.

As duas praticam atividade física, têm peso adequado e apresentam LDL semelhante.

Uma possui Lp(a) baixa.

A outra apresenta Lp(a) muito elevada devido à genética.

Os riscos cardiovasculares das duas pessoas não são necessariamente iguais.

Então todo mundo deveria medir Lp(a)?

Essa é justamente uma das grandes mudanças recentes.

Sim, hoje há recomendação para que todo adulto tenha a Lp(a) medida pelo menos uma vez.

A diretriz ACC/AHA de 2026 recomenda a dosagem pelo menos uma vez para identificar indivíduos com risco cardiovascular aumentado. A atualização ESC/EAS de 2025 também considera razoável medir Lp(a) pelo menos uma vez durante a vida adulta. 

A informação é especialmente relevante quando existe:

  • histórico familiar de infarto ou AVC precoces;
  • doença coronariana em idade jovem;
  • aterosclerose aparentemente desproporcional aos fatores de risco tradicionais;
  • hipercolesterolemia familiar;
  • eventos cardiovasculares apesar de bom controle do LDL;
  • familiares conhecidos com Lp(a) muito elevada.

Qual valor de Lp(a) é considerado alto?

Aqui existe uma particularidade importante.

A Lp(a) pode ser reportada em:

mg/dL

ou

nmol/L.

Não são simplesmente duas unidades que podem ser convertidas por uma regra matemática fixa, porque o tamanho da apolipoproteína(a) varia entre indivíduos. Por isso, não é recomendado utilizar um fator universal de conversão entre mg/dL e nmol/L. 

Como referência prática, a diretriz ACC/AHA de 2026 considera ≥50 mg/dL ou ≥125 nmol/L um fator que aumenta o risco cardiovascular.

valores LpA

A mesma diretriz informa que níveis nessa faixa estão associados a aproximadamente 1,4 vez o risco estimado de doença cardiovascular aterosclerótica, enquanto valores ≥250 nmol/L ou 100 mg/dL estão associados a aproximadamente o dobro do risco estimado. 

A atualização europeia de 2025 utiliza >50 mg/dL ou >105 nmol/L como marcador de risco aumentado. 

A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025 também inclui Lp(a) >50 mg/dL ou >125 nmol/L entre os fatores agravantes do risco cardiovascular. 

Portanto, não tente transformar o resultado de uma unidade para a outra usando uma regra encontrada na internet.

Interprete o valor na unidade fornecida pelo laboratório.

Lp(a) alta significa que vou ter um infarto?

Não.

Ela aumenta o risco.

Isso é diferente de determinar o futuro de uma pessoa.

Risco cardiovascular é resultado da combinação de vários fatores.

Uma pessoa pode ter Lp(a) elevada e, ao mesmo tempo, ter:

pressão bem controlada;

LDL muito baixo;

glicemia adequada;

não fumar;

atividade física regular;

peso adequado.

Outra pessoa com a mesma Lp(a) pode somar hipertensão, diabetes, tabagismo e LDL elevado.

São situações completamente diferentes.

Por isso, a Lp(a) deve ser entendida como um modificador do risco, e nunca como um diagnóstico isolado de doença coronariana.

Meu LDL está normal. Por que a Lp(a) ainda importa?

Porque LDL e Lp(a) não são a mesma coisa.

É possível apresentar LDL aparentemente adequado e Lp(a) elevada.

Nesse cenário, descobrir a Lp(a) pode mudar nossa interpretação daquele LDL.

LDL e LpA

A nova diretriz americana recomenda que a presença de Lp(a) elevada leve a um controle mais intensivo do LDL e dos demais fatores de risco modificáveis. 

Isso é particularmente importante porque, enquanto hoje não conseguimos modificar facilmente a carga genética da Lp(a), conseguimos modificar vários outros componentes do risco cardiovascular.

Alimentação e exercícios conseguem baixar a Lp(a)?

Muito pouco.

Esse é um ponto que precisa ser explicado claramente para evitar frustração.

Dieta, emagrecimento e exercícios têm inúmeros benefícios cardiovasculares, mas normalmente produzem pouca alteração diretamente sobre a concentração da Lp(a), porque ela é predominantemente determinada geneticamente. 

Isso não significa que estilo de vida não importa.

LpA e estilo de vida

Na realidade, se existe um fator de risco que não conseguimos modificar facilmente, controlar tudo aquilo que podemos modificar se torna ainda mais importante.

Ou seja:

não praticamos exercícios para “baixar a Lp(a)”.

Praticamos exercícios para reduzir o risco cardiovascular global de alguém que possui Lp(a) elevada.

Existe medicamento específico para baixar Lp(a)?

Essa é uma área de intensa pesquisa.

Até setembro de 2026, não existe um medicamento aprovado especificamente para Lp(a) com benefício cardiovascular comprovado em estudos de desfechos. 

Alguns medicamentos utilizados para reduzir LDL, principalmente os inibidores de PCSK9, também reduzem modestamente a Lp(a). Estudos com evolocumabe e alirocumabe observaram reduções em torno de 20% a 30%. 

Mas eles não são prescritos simplesmente para “tratar um número de Lp(a)”.

Sua indicação considera o risco cardiovascular global, LDL, presença de doença aterosclerótica e outros fatores.

E os novos medicamentos para Lp(a)?

Talvez você tenha encontrado notícias sobre medicamentos capazes de reduzir a Lp(a) em grande intensidade.

Existem diferentes estratégias em desenvolvimento que atuam sobre a produção da apolipoproteína(a).

Mas aconteceu recentemente algo importante.

Em setembro de 2026 foram divulgados os resultados principais do estudo Lp(a)HORIZON, que avaliou o pelacarsen em pacientes com doença cardiovascular estabelecida e Lp(a) elevada.

O medicamento conseguiu reduzir Lp(a), mas o estudo não atingiu seu objetivo primário de reduzir eventos cardiovasculares em comparação ao placebo. 

Isso é cientificamente muito relevante.

Mostra por que não basta desenvolver um medicamento que faça o número do exame cair.

Precisamos demonstrar que aquela redução realmente se traduz em menos infartos, AVCs e outros eventos cardiovasculares.

Outras terapias continuam sendo estudadas, e essa é uma área que provavelmente mudará bastante nos próximos anos.

Se minha Lp(a) estiver alta, o que devo fazer?

Não entre em pânico e não tente “tratar o exame” isoladamente.

O próximo passo é colocar aquela informação dentro do seu risco cardiovascular completo.

Precisamos olhar colesterol LDL, pressão arterial, diabetes, tabagismo, histórico familiar, presença de aterosclerose, função renal, idade e demais fatores.

LpA alta

Dependendo do cenário, uma Lp(a) elevada pode justificar uma estratégia mais intensiva de prevenção.

Em alguns pacientes, exames capazes de pesquisar aterosclerose subclínica, como o escore de cálcio, podem ser considerados quando a informação realmente tiver potencial de mudar a conduta.

Leia Também: É possível ter placas nas coronárias sem sentir nada?

Leia Também: Check-up cardiológico depois dos 40: quais exames realmente fazem sentido?

Preciso repetir a Lp(a) todo ano?

Na maioria das pessoas, não.

Como a Lp(a) é predominantemente determinada geneticamente e costuma ser relativamente estável, sua lógica é diferente daquela do LDL.

Não precisamos necessariamente acompanhá-la todos os meses ou todos os anos.

É justamente por isso que as diretrizes falam em uma dosagem pelo menos uma vez na vida adulta.

Situações específicas podem justificar nova avaliação, mas isso deve ser individualizado.

Se minha Lp(a) for alta, meus familiares também deveriam medir?

Como existe forte influência genética, encontrar uma Lp(a) muito elevada chama atenção também para a família.

Hoje, de qualquer maneira, a recomendação de dosagem pelo menos uma vez já se aplica aos adultos em geral.

Mas a informação ganha ainda mais relevância quando existe uma família com múltiplos casos de doença cardiovascular precoce.

É uma oportunidade de identificar risco antes que apareça o primeiro evento.

O exame que você nunca mediu pode explicar parte do risco que faltava

Durante muitos anos, prevenção cardiovascular foi quase sinônimo de:

“Como está o colesterol?”

Hoje sabemos que essa pergunta é incompleta.

É preciso perguntar:

Qual LDL?

Por quanto tempo esteve elevado?

Qual é o risco global?

Existe aterosclerose?

Qual é o histórico familiar?

Existe Lp(a) elevada?

A lipoproteína(a) não substitui os fatores de risco tradicionais.

Ela acrescenta uma informação que pode ajudar a entender melhor por que algumas pessoas desenvolvem aterosclerose e eventos cardiovasculares mesmo quando aparentemente não possuem todos os fatores clássicos.

E existe uma vantagem importante:

é um exame simples de sangue que, para a maioria das pessoas, precisa ser feito apenas uma vez para que essa informação passe a fazer parte da avaliação de risco pelo resto da vida.

Se você nunca mediu sua lipoproteína(a), especialmente se possui histórico familiar de infarto precoce ou doença cardiovascular, vale discutir essa informação durante sua avaliação cardiológica.

O objetivo não é encontrar mais um número para preocupar o paciente.

É conhecer melhor o risco para tomar decisões melhores antes que a doença cardiovascular apareça.

Dr. Pedro Perillo
Médico Cardiologista
Especialista em Cardiologia e Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista
CRM-GO 20317 | RQE 15.681 | RQE 17.630

Perguntas Frequentes

Qual valor de Lp(a) é considerado alto?
Valores a partir de aproximadamente 50 mg/dL são considerados clinicamente relevantes por diferentes diretrizes. Quando o resultado é apresentado em nmol/L, o limite varia entre recomendações e não deve ser convertido diretamente por um fator fixo.

Lipoproteína(a) alta é hereditária?
Na maior parte dos casos, sim. Sua concentração é predominantemente determinada pela genética.

Dieta reduz Lp(a)?
Normalmente pouco. Alimentação saudável e exercícios continuam fundamentais para reduzir o risco cardiovascular global.

Preciso medir Lp(a) mais de uma vez?
Na maioria dos adultos, uma medida é suficiente para avaliação inicial, porque os níveis tendem a permanecer relativamente estáveis.

Existe remédio específico para Lp(a)?
Até setembro de 2026, ainda não existe terapia especificamente aprovada com benefício cardiovascular comprovado para tratar Lp(a) elevada.

Referências para colocar no rodapé

ACC/AHA et al. — 2026 Guideline on the Management of Dyslipidemia.

ESC/EAS — 2025 Focused Update of the Guidelines for the Management of Dyslipidaemias. 

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose 2025.

Lp(a)HORIZON — Pelacarsen, 2026. 

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