Dor no peito, falta de ar aos esforços, histórico familiar de infarto ou alterações em outros exames frequentemente levantam uma pergunta: como saber se existem placas ou obstruções nas artérias do coração?
Durante muitos anos, quando era necessário visualizar diretamente as artérias coronárias, o principal exame disponível era o cateterismo cardíaco.
Hoje existe outra possibilidade em muitos pacientes.
A angiotomografia das coronárias, também chamada de angioTC coronária ou angiotomografia coronariana, utiliza tomografia computadorizada associada à administração de contraste para produzir imagens detalhadas das artérias que levam sangue ao músculo cardíaco.
É um exame não invasivo, capaz de identificar placas de aterosclerose, avaliar sua localização e estimar o grau de estreitamento das coronárias.
Em determinados pacientes, uma angiotomografia de boa qualidade pode fornecer informações suficientes para afastar uma obstrução coronária importante e, dessa forma, evitar um cateterismo diagnóstico desnecessário.
Mas isso não significa que a angiotomografia substituiu o cateterismo. São exames diferentes, utilizados em situações diferentes.
Entender essa diferença é essencial para escolher o exame correto.
A experiência de quem avalia o exame também importa
Dr. Pedro Perillo — Cardiologista e Cardiologista Intervencionista em Goiânia
Minha atuação envolve tanto a investigação clínica da doença coronariana quanto seu tratamento através da Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista.
Realizei minha formação em Cardiologia e posteriormente em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista pela Universidade Federal de São Paulo — UNIFESP, instituição onde também concluí meu Mestrado em Cardiologia.

Sou especialista titulado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e pela Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI).
Ao longo da minha formação e atuação profissional, já participei diretamente de mais de 5.000 procedimentos em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, incluindo cateterismos, angioplastias e procedimentos cardiovasculares de diferentes níveis de complexidade.
Essa experiência influencia também a investigação que antecede um procedimento invasivo.
Quando avalio um paciente com suspeita de doença coronariana, a pergunta não é simplesmente:
“Qual exame podemos fazer?”
A pergunta mais importante é:
“Qual exame é realmente necessário para responder à dúvida clínica deste paciente?”
Em muitos casos, a angiotomografia das coronárias pode fornecer essa resposta sem que seja necessário começar diretamente por um exame invasivo.
O que é a angiotomografia das coronárias?
A angiotomografia das coronárias é uma tomografia computadorizada realizada especificamente para visualizar as artérias coronárias.
Durante o exame, é administrado contraste iodado por uma veia do braço. Um equipamento de tomografia de alta resolução registra rapidamente imagens do coração enquanto um computador reconstrói as artérias em diferentes planos e em três dimensões.

Isso permite avaliar:
- presença ou ausência de aterosclerose;
- placas calcificadas;
- placas não calcificadas;
- placas mistas;
- localização das placas;
- grau estimado de estreitamento das coronárias;
- anatomia e origem das artérias;
- algumas características que podem indicar placas de maior risco.
Ou seja, a angiotomografia das coronárias não mostra apenas se a artéria está “aberta” ou “fechada”.
Ela pode mostrar a parede da artéria e a própria aterosclerose, inclusive antes de existir uma obstrução muito importante.
Para quem a angiotomografia das coronárias pode ser indicada?
A indicação depende do contexto clínico.
Um dos cenários mais comuns é a investigação de pacientes com dor ou desconforto no peito em que existe possibilidade de doença coronariana, mas ainda não existe diagnóstico estabelecido.
Também pode ser considerada em situações como:
- falta de ar aos esforços sem causa definida;
- sintomas sugestivos de angina;
- exames anteriores inconclusivos;
- teste ergométrico duvidoso ou alterado;
- presença de múltiplos fatores de risco cardiovascular;
- necessidade de esclarecer a anatomia das coronárias;
- avaliação de pacientes selecionados com suspeita de doença coronariana.

A decisão não deve ser baseada apenas na idade ou em um sintoma isolado.
Hipertensão, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, história familiar de doença cardiovascular precoce, características da dor e outros elementos modificam a probabilidade de doença coronariana.
Por isso, o primeiro passo continua sendo uma avaliação cardiológica adequada.
O que significa encontrar uma placa na angiotomografia?
Essa é uma das partes mais importantes do exame.
A angiotomografia pode mostrar aterosclerose mesmo quando a placa ainda não provoca uma obstrução grave.
Imagine uma artéria que apresenta uma placa ocupando aproximadamente 20% ou 30% do seu interior.
Provavelmente o fluxo de sangue ainda está preservado.

Isso significa que o paciente precisa de um stent?
Não.
Mas também não significa que o exame seja normal.
A presença de uma placa demonstra que aquele paciente já possui doença aterosclerótica coronariana.
Essa informação pode mudar a intensidade com que controlamos fatores como colesterol, pressão arterial, diabetes, tabagismo, peso e hábitos de vida.
Em outras palavras, descobrir uma placa precocemente pode permitir agir antes que ela se transforme em uma obstrução importante ou esteja relacionada a um evento cardiovascular.
[LINK FUTURO: “É possível ter placas nas coronárias sem sentir nada?”]
Encontrar uma obstrução significa que preciso colocar um stent?
Não.
Assim como expliquei no artigo sobre angioplastia, não tratamos apenas uma porcentagem escrita em um laudo.
Uma obstrução encontrada na angiotomografia precisa ser interpretada junto com:
- sintomas;
- localização da lesão;
- extensão da doença;
- características da placa;
- outros exames;
- quantidade de músculo cardíaco potencialmente afetado;
- contexto clínico do paciente.
Uma placa discreta ou moderada frequentemente é tratada inicialmente através do controle intensivo dos fatores de risco e medicamentos adequados.
Já determinadas obstruções podem exigir investigação adicional.
A Angiotomografia das coronárias pode evitar o cateterismo?
Em muitos pacientes, sim.
Esse é um dos principais motivos pelos quais a angiotomografia ganhou importância na investigação da doença coronariana.
Considere um paciente com dor torácica e probabilidade intermediária de doença coronária.
Se a angiotomografia das coronárias mostrar artérias sem placas significativas e sem obstruções relevantes, muitas vezes não existe motivo para realizar um cateterismo apenas para confirmar que aquelas artérias estão normais.

Nesse cenário, conseguimos obter uma informação anatômica importante através de um exame não invasivo.
É justamente aqui que a angiotomografia pode evitar procedimentos invasivos desnecessários.
Por outro lado, se o exame demonstrar uma obstrução potencialmente importante, a investigação pode precisar continuar.
Quando o cateterismo ainda é necessário?
A angiografia coronária invasiva, popularmente chamada de cateterismo, continua sendo uma ferramenta fundamental da Cardiologia.
E existe uma diferença decisiva entre os dois exames:
a angiotomografia diagnostica; o cateterismo também pode abrir caminho para tratar.
Durante o cateterismo, é possível não apenas visualizar uma lesão, mas também realizar avaliações adicionais e quando indicado, prosseguir para uma angioplastia no mesmo contexto.
O cateterismo pode ser necessário, por exemplo, quando existe:
- forte suspeita de obstrução coronária significativa;
- achado importante na angiotomografia;
- sintomas persistentes apesar do tratamento;
- evidência relevante de isquemia;
- síndrome coronariana aguda;
- infarto;
- necessidade de avaliar invasivamente uma lesão;
- possibilidade concreta de revascularização.
Portanto, não devemos pensar em angiotomografia versus cateterismo como se um exame tivesse substituído o outro.
O mais correto é pensar:
qual deles responde melhor à pergunta que precisamos responder naquele momento?
Angiotomografia das coronárias é a mesma coisa que escore de cálcio?
Não.
Apesar de ambos utilizarem tomografia computadorizada, são exames diferentes.
Escore de cálcio
O escore de cálcio coronariano mede a quantidade de cálcio existente nas artérias coronárias.
Geralmente é realizado sem contraste e pode ajudar na avaliação de risco cardiovascular em pacientes selecionados.
Ele não foi criado para definir detalhadamente o grau de uma obstrução.

Angiotomografia das coronárias
A angiotomografia utiliza contraste e permite observar diretamente o interior e a parede das artérias.
Ela consegue identificar tanto placas calcificadas quanto placas que apresentam pouco ou nenhum cálcio.
Isso é particularmente importante porque aterosclerose não é sinônimo de calcificação.
Uma pessoa pode apresentar placas de aterosclerose mesmo com pouca calcificação coronariana.
[LINK FUTURO: “Escore de cálcio ou angiotomografia: qual a diferença?”]
Como é feito o exame?
A angiotomografia das coronárias é realizada em equipamento de tomografia computadorizada.
Antes da aquisição das imagens, são colocados eletrodos no tórax para sincronizar a tomografia com os batimentos cardíacos.
O contraste é administrado através de uma veia.
Para obter imagens de melhor qualidade, é desejável que a frequência cardíaca esteja adequadamente controlada. Dependendo da situação clínica e do protocolo do serviço, podem ser utilizadas medicações antes do exame para reduzir a frequência cardíaca.

Também pode ser utilizado medicamento vasodilatador para melhorar a visualização das coronárias, desde que não existam contraindicações.
A aquisição das imagens propriamente dita é muito rápida.
Depois, as imagens passam por reconstrução e análise detalhada.
Angiotomografia utiliza contraste?
Sim.
O contraste utilizado é iodado.
Por isso, antes do exame, devem ser consideradas algumas situações específicas, principalmente histórico de reações importantes a contraste e presença de determinadas alterações da função renal.
Isso não significa que todo paciente com alteração renal esteja proibido de realizar o exame.
Significa que o risco e o benefício precisam ser avaliados individualmente.
A angiotomografia das coronárias tem radiação?
Sim.
Assim como outras modalidades de tomografia computadorizada, existe exposição à radiação ionizante.
Entretanto, equipamentos modernos e protocolos adequados permitiram reduzir consideravelmente a dose utilizada em muitos exames.
A indicação deve sempre considerar se a informação obtida pelo exame realmente poderá modificar a investigação ou o tratamento.
Esse princípio vale não apenas para a angiotomografia, mas para praticamente qualquer exame médico.
Não devemos fazer exames simplesmente porque eles existem.
Precisamos fazer aqueles que respondem a uma pergunta clínica relevante.
E se a angiotomografia mostrar uma obstrução de 50% ou 70%?
A partir daí, existem diferentes possibilidades.
Alguns pacientes podem precisar apenas de tratamento clínico.
Em outros, pode ser indicada uma investigação funcional para saber se aquela lesão realmente reduz o fluxo sanguíneo de maneira relevante.
Em situações selecionadas, pode ser indicado o cateterismo cardíaco, permitindo uma avaliação mais detalhada da lesão.
Durante o cateterismo, métodos como FFR, iFR, ultrassom intracoronário (IVUS) ou tomografia de coerência óptica (OCT) podem ser utilizados em casos apropriados para compreender melhor a repercussão ou a anatomia da obstrução.

E, se houver indicação de tratamento percutâneo, pode então ser realizada uma angioplastia coronária com implante de stent.
É exatamente por isso que esses três exames/procedimentos devem ser compreendidos como partes de uma sequência possível:
Angiotomografia → Cateterismo → Angioplastia
Mas nem todo paciente percorre todas essas etapas.
Alguns param na primeira.
Outros sequer precisam da primeira.
A decisão é individual.
Qual é o melhor exame para avaliar minhas coronárias?
Não existe um exame ideal para todas as pessoas.
Alguns pacientes se beneficiam mais de uma angiotomografia.
Outros precisam de testes funcionais.
Em determinadas situações, o cateterismo pode ser a estratégia mais adequada desde o início.
E em pacientes com probabilidade muito baixa de doença, talvez nenhum desses exames seja necessário.
Essa é uma parte importante da Cardiologia moderna: realizar o exame certo no paciente certo.
Se você apresenta dor no peito, falta de ar aos esforços, múltiplos fatores de risco cardiovascular ou recebeu resultado alterado em algum exame, uma avaliação cardiológica pode definir qual é a melhor estratégia de investigação.
O objetivo não é simplesmente procurar obstruções.
É identificar a presença de doença cardiovascular de maneira adequada, compreender seu significado e, quando necessário, agir antes que ela resulte em consequências maiores.
Dr. Pedro Perillo
Médico Cardiologista
Especialista em Cardiologia e Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista
CRM-GO 20317 | RQE 15.681 | RQE 17.630
Perguntas Frequentes
Angiotomografia das coronárias detecta artéria entupida?
Sim. Ela permite visualizar placas de aterosclerose e estimar o grau de estreitamento das artérias coronárias.
Angiotomografia substitui o cateterismo?
Em alguns pacientes ela pode evitar um cateterismo exclusivamente diagnóstico. Quando existe alta suspeita de doença importante ou possibilidade de tratamento invasivo, o cateterismo pode continuar sendo necessário.
Angiotomografia e escore de cálcio são iguais?
Não. O escore quantifica cálcio nas coronárias, enquanto a angiotomografia utiliza contraste para avaliar diretamente placas e possíveis obstruções.
Se aparecer uma obstrução, vou precisar colocar stent?
Não necessariamente. A necessidade de angioplastia depende dos sintomas, localização, gravidade e repercussão da obstrução, além de outros aspectos clínicos.
A angiotomografia precisa de contraste?
Sim. A angiotomografia coronária utiliza contraste iodado intravenoso.
Referências e diretrizes
European Society of Cardiology. 2024 ESC Guidelines for the Management of Chronic Coronary Syndromes. A diretriz inclui a CCTA como modalidade anatômica dentro do algoritmo de investigação da doença coronariana crônica.
AHA/ACC et al. 2021 Guideline for the Evaluation and Diagnosis of Chest Pain. A diretriz enfatiza avaliação estruturada do risco e uso direcionado de imagem cardíaca nos pacientes que mais se beneficiam da investigação.
Society of Cardiovascular Computed Tomography — Expert Consensus on Coronary CT Angiography. A SCCT mantém documentos específicos sobre aquisição, interpretação e aplicações clínicas da CCTA, incluindo atualizações publicadas até 2026.
Diretriz ESC 2024 — Chronic Coronary Syndromes
Diretriz AHA/ACC — Chest Pain
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