Descobrir uma obstrução nas artérias do coração costuma gerar muitas dúvidas: preciso colocar um stent? Toda placa precisa ser tratada? Angioplastia é uma cirurgia? Existe risco? E o que muda na vida depois do procedimento?
A angioplastia coronária, também chamada de intervenção coronária percutânea, é um procedimento minimamente invasivo utilizado para tratar determinadas obstruções das artérias coronárias — os vasos responsáveis por levar sangue e oxigênio ao músculo cardíaco.

Durante o procedimento, o cardiologista intervencionista utiliza cateteres introduzidos por uma artéria, geralmente no punho, para chegar até o coração e tratar a região comprometida. Na maioria dos casos, é implantado um stent coronário, uma pequena estrutura metálica que permanece dentro da artéria ajudando a mantê-la aberta.
Mas existe um ponto fundamental: encontrar uma placa ou uma obstrução no cateterismo, não significa automaticamente precisar de angioplastia.
A decisão depende dos sintomas, do grau e localização da obstrução, da quantidade de músculo cardíaco em risco, dos resultados dos exames e das características individuais de cada paciente.
Quem realiza uma angioplastia coronária?
A angioplastia coronária é realizada por um cardiologista intervencionista, médico especializado em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista.
Dr. Pedro Perillo — Cardiologista e Cardiologista Intervencionista em Goiânia
Minha formação inclui residência médica em Cardiologia e especialização em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista pela Universidade Federal de São Paulo — UNIFESP, onde também concluí meu Mestrado em Cardiologia.
Sou especialista titulado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e pela Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI).
Ao longo da minha formação e atuação profissional, já realizei mais de 5.000 procedimentos em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, envolvendo desde casos eletivos até pacientes com doença coronariana complexa e situações de emergência.

Essa experiência também influencia a forma como conduzo meus pacientes: procuro acompanhar todo o processo, desde a avaliação clínica e a decisão sobre a necessidade do procedimento até a angioplastia e o acompanhamento posterior.
Porque, antes de decidir como tratar uma obstrução, é preciso responder a uma pergunta ainda mais importante: ela realmente precisa ser tratada com um stent?
O que é uma obstrução nas artérias coronárias?
As artérias coronárias podem desenvolver depósitos de colesterol e outras substâncias em suas paredes ao longo dos anos. Esse processo é chamado de aterosclerose.
Com o crescimento dessas placas, a passagem para o sangue pode se tornar progressivamente menor. Em determinadas situações, o fluxo pode não ser suficiente para atender à necessidade do músculo cardíaco, principalmente durante esforços.

É nesse contexto que podem surgir sintomas como:
- dor, pressão ou aperto no peito;
- falta de ar aos esforços;
- redução da capacidade física;
- desconforto no braço, pescoço, mandíbula ou região superior do abdome;
- cansaço desproporcional ao esforço.
Em outros pacientes, entretanto, a aterosclerose pode permanecer silenciosa durante muito tempo.
E existe ainda uma situação diferente: uma placa pode se romper subitamente, provocar a formação de um coágulo e interromper o fluxo de sangue. Esse é um dos principais mecanismos do infarto agudo do miocárdio.
Quando a angioplastia coronária é indicada?
Não existe uma única resposta.
A indicação de angioplastia coronária precisa considerar o contexto completo do paciente.
Angioplastia durante um infarto
Uma das situações mais conhecidas é o infarto causado pela obstrução aguda de uma artéria coronária.
Nesses casos, pode ser necessário realizar imediatamente o cateterismo para localizar a artéria responsável e, quando indicado, prosseguir com uma angioplastia de emergência para restabelecer o fluxo sanguíneo.

Quanto maior o tempo de interrupção do fluxo, maior pode ser a quantidade de músculo cardíaco lesionado. Por isso, diante de uma suspeita de infarto, procurar atendimento rapidamente é fundamental.
Angina ou isquemia apesar do tratamento
Outra situação ocorre em pacientes com doença coronariana conhecida que continuam apresentando dor no peito ou outros sintomas de isquemia apesar do tratamento medicamentoso adequado.
Quando existe uma obstrução relevante responsável pelos sintomas, a angioplastia coronária pode melhorar o fluxo de sangue e reduzir a angina.
Obstruções consideradas de maior risco
Algumas lesões, devido à localização, extensão ou repercussão sobre o fluxo sanguíneo, merecem avaliação mais detalhada para definir a melhor estratégia de revascularização.
Dependendo da anatomia, das doenças associadas e da complexidade do caso, o tratamento pode ser:
- Medicamentoso;
- Angioplastia com stent;
- Cirurgia de revascularização do miocárdio.
- Em situações mais complexas, a decisão pode ser discutida por um Heart Team, reunindo cardiologista clínico, cardiologista intervencionista e cirurgião cardiovascular.
Toda obstrução de 70% precisa de stent?
Não necessariamente.
Esse é um dos conceitos mais importantes para entender a angioplastia moderna.
A porcentagem visual de obstrução é apenas parte da avaliação. Algumas lesões intermediárias podem parecer importantes na imagem, mas provocar pouca alteração do fluxo. Outras podem apresentar repercussão funcional maior do que a imagem sugere.
Quando necessário, durante o próprio cateterismo podem ser utilizadas técnicas que ajudam a determinar se aquela obstrução realmente compromete o fluxo sanguíneo para o músculo cardíaco.
Entre elas estão medidas fisiológicas como FFR e iFR, além de métodos de imagem intravascular, como IVUS e OCT.
Essas tecnologias permitem uma avaliação muito mais detalhada da artéria e auxiliam tanto na decisão de tratar quanto na otimização da implantação do stent em casos selecionados.
O objetivo não deve ser simplesmente “tratar uma imagem”. O objetivo é identificar qual lesão realmente importa para aquele paciente.
Como é feita a angioplastia coronária?
O procedimento é realizado em uma sala de Hemodinâmica, utilizando equipamentos de raio-X que permitem acompanhar os cateteres em tempo real.
Na maioria dos casos, o paciente permanece acordado e recebe anestesia local no ponto de acesso.
1. Acesso pela artéria
Atualmente, sempre que tecnicamente apropriado, o acesso pelo punho, através da artéria radial, é frequentemente utilizado.
Em determinadas situações pode ser necessário utilizar a artéria femoral, localizada na região da virilha.
2. Cateterismo e localização da obstrução
Cateteres finos são conduzidos até as artérias coronárias.
O contraste permite visualizar onde estão as obstruções e avaliar a anatomia coronariana.
Se você quiser entender detalhadamente essa primeira etapa, leia também:
https://drpedroperillo.com.br/cateterismo/
3. Passagem do fio-guia
Depois de definida a lesão que será tratada, um fio extremamente fino é conduzido através da obstrução.
Esse fio funciona como um trilho para os dispositivos utilizados durante a angioplastia.

4. Dilatação da artéria
Dependendo da característica da placa, podem ser utilizados pequenos balões para abrir caminho e preparar a região.
O balão é posicionado no local da obstrução e insuflado por alguns segundos, aumentando o espaço disponível para o fluxo de sangue.
5. Implantação do stent
Na maioria das angioplastias é implantado um stent coronário.
O stent fica montado sobre um balão. Quando o balão é insuflado, o stent se expande e se adapta à parede da artéria.
Depois, o balão é retirado e o stent permanece no local.
Os stents utilizados atualmente são, em sua maioria, stents farmacológicos, desenvolvidos para reduzir o risco de crescimento excessivo de tecido dentro da estrutura e diminuir a chance de nova obstrução naquele segmento.
O stent fica para sempre?
Sim.
Após ser implantado, o stent permanece incorporado à parede da artéria. Com o passar do tempo, ocorre cicatrização e formação de uma camada de tecido sobre sua superfície.
Entretanto, colocar um stent não elimina a aterosclerose do organismo.

A angioplastia coronária trata uma ou mais regiões específicas. O paciente continua tendo uma doença aterosclerótica que precisa ser controlada. Por isso, uma angioplastia bem-sucedida não encerra o tratamento cardiológico.
Na verdade, começa uma nova etapa.
[LINK FUTURO: “Quanto tempo dura um stent? Ele pode entupir novamente?”]
Quais medicamentos são necessários depois da angioplastia?
Após o implante do stent, normalmente é necessário utilizar medicamentos que diminuem a agregação das plaquetas e reduzem o risco de formação de coágulos dentro do stent.
Por determinado período, muitos pacientes utilizam uma combinação de dois antiagregantes plaquetários.
A escolha dos medicamentos e o tempo de uso dependem de fatores como:
- Motivo da angioplastia;
- Tipo de síndrome coronariana;
- Risco de sangramento;
- Tipo e complexidade da intervenção;
- Outras doenças e medicamentos em uso.
Nunca suspenda um antiagregante após uma angioplastia por conta própria.
Uma interrupção inadequada pode trazer consequências importantes. Qualquer cirurgia, procedimento odontológico ou necessidade de suspender medicamentos deve ser discutida com o médico responsável pelo acompanhamento.
Além dos antiagregantes, o controle do colesterol, pressão arterial, diabetes, tabagismo, peso, alimentação e atividade física continua sendo fundamental.
[LINK FUTURO: “Depois da angioplastia: quais cuidados são necessários?”]
A angioplastia coronária tem riscos?
Sim. Embora seja um procedimento realizado rotineiramente e com elevado grau de segurança quando corretamente indicado, a angioplastia não é isenta de riscos.
Entre as possíveis complicações estão sangramento ou hematoma no local da punção, lesão vascular, reação ao contraste, alteração da função renal em pacientes predispostos, arritmias e complicações relacionadas à própria artéria coronária.
Eventos graves, como infarto, AVC, necessidade de cirurgia de emergência ou óbito, são possíveis, embora incomuns e dependentes sobretudo da gravidade clínica, anatomia coronariana e complexidade do procedimento.
Por isso, indicação correta, planejamento e experiência da equipe são fundamentais.
Angioplastia ou cirurgia de ponte de safena: qual é melhor?
Nenhuma das duas é “melhor” para todos.
Existem pacientes em que a angioplastia coronária oferece uma excelente opção e outros em que a cirurgia de revascularização pode proporcionar resultados mais adequados.
São considerados fatores como:
- número de artérias comprometidas;
- localização das obstruções;
- complexidade anatômica;
- presença de diabetes;
- função do coração;
- idade;
- outras doenças;
- risco cirúrgico;
- possibilidade de realizar uma revascularização completa.
Nos casos em que existe dúvida, a melhor decisão deve ser individualizada e compartilhada com o paciente.
Como é a recuperação depois da angioplastia?
A recuperação costuma ser relativamente rápida, especialmente quando o procedimento é realizado pelo punho e sem complicações.
O tempo de internação depende do motivo da angioplastia.
Uma angioplastia eletiva pode exigir apenas um período curto de observação. Já um paciente tratado durante um infarto pode precisar permanecer internado por mais tempo devido à própria doença que levou ao procedimento.
Nos primeiros dias, também são fornecidas orientações sobre esforço físico, cuidados com o local da punção, medicamentos e retorno às atividades habituais.

O acompanhamento posterior é essencial.
Colocar um stent significa que estou curado?
Não.
Talvez essa seja a informação mais importante deste artigo.
O stent trata uma consequência da aterosclerose, mas não elimina as causas que permitiram que as placas se desenvolvessem. Uma pessoa que realizou angioplastia deve enxergar o procedimento como uma oportunidade para controlar de maneira ainda mais rigorosa seus fatores de risco cardiovascular.

Isso inclui:
- controle adequado do colesterol;
- controle da pressão arterial;
- tratamento do diabetes;
- abandono do cigarro;
- atividade física orientada;
- alimentação equilibrada;
- uso correto das medicações;
- acompanhamento cardiológico periódico.
O objetivo não é apenas manter o stent aberto. É reduzir a probabilidade de novas placas, novos sintomas e novos eventos cardiovasculares.
Preciso de angioplastia? A decisão deve ser individualizada
Se um exame mostrou uma obstrução nas coronárias, isso não significa automaticamente que você precisa colocar um stent.
Da mesma forma, uma obstrução que parece moderada em determinado exame não deve ser simplesmente ignorada sem que seu significado seja analisado dentro do contexto clínico.
A decisão pode envolver sintomas, exames não invasivos, angiotomografia das coronárias, cateterismo, avaliação funcional das lesões e características individuais.
A Cardiologia Intervencionista moderna não busca simplesmente identificar obstruções e colocar stents. O objetivo é escolher o tratamento certo para o paciente certo, no momento certo.
Se você recebeu a indicação de um cateterismo cardíaco, descobriu uma obstrução nas coronárias ou precisa avaliar a indicação de uma angioplastia coronária, uma avaliação individualizada pode ajudar a entender quais são as opções e qual estratégia faz mais sentido para o seu caso.
Já realizou o procedimento? Leia também: Stent no coração — 10 dúvidas que mais escuto dos pacientes.
Dr. Pedro Perillo
Médico Cardiologista
Especialista em Cardiologia e Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista
CRM-GO 20317 | RQE 15.681 | RQE 17.630
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