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Dr. Pedro Perillo – Cardiologista Intervencionista em Goiânia – GO

Sentir uma dor no peito costuma provocar uma preocupação quase imediata:

“Será que é o coração?”

Em muitos casos, não é.

Músculos, costelas, estômago, esôfago, pulmões e até situações de ansiedade podem produzir desconforto na região do tórax.

Por outro lado, dor no peito também pode ser o primeiro sinal de uma doença coronariana importante ou até de um infarto.

dor no peito

O desafio é que não existe uma característica isolada capaz de separar todos os casos com segurança.

A dor cardíaca nem sempre é uma dor forte. Algumas pessoas descrevem apenas pressão, peso, aperto, queimação ou desconforto. E os sintomas podem aparecer no tórax, braços, ombros, pescoço, mandíbula, costas ou região superior do abdome. Falta de ar e fadiga também podem representar equivalentes de angina. 

Por isso, mais importante do que perguntar simplesmente “é dor ou não é dor?” é entender como o sintoma começou, quando aparece, quanto dura, o que o desencadeia e quais outros sintomas o acompanham.

Quem avalia dor no peito e doença coronariana?

Dr. Pedro Perillo — Cardiologista e Cardiologista Intervencionista em Goiânia

Minha atuação envolve tanto a avaliação clínica de pacientes com suspeita de doença coronariana quanto a investigação e o tratamento através da Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista.

Realizei minha formação em Cardiologia e posteriormente em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista pela Universidade Federal de São Paulo — UNIFESP, onde também concluí meu Mestrado em Cardiologia.

Sou especialista titulado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e pela Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI).

dr Pedro Perillo

Ao longo da minha formação e atuação profissional, já realizei mais de 5.000 procedimentos em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, incluindo cateterismos, angioplastias e procedimentos cardiovasculares de diferentes níveis de complexidade.

Essa experiência reforça um princípio importante:

Nem toda dor no peito precisa de cateterismo — mas nenhuma dor potencialmente cardíaca deve ser negligenciada.

O objetivo da avaliação é identificar quem precisa de investigação urgente, quem pode ser investigado de maneira programada e quem provavelmente apresenta uma causa não cardíaca.

Como costuma ser a dor causada pelo coração?

A manifestação clássica da doença coronariana é a angina.

Ela ocorre quando existe um desequilíbrio entre a quantidade de oxigênio que o músculo cardíaco necessita e o fluxo de sangue que chega através das artérias coronárias.

O paciente pode descrevê-la como:

  1. pressão;
  2. aperto;
  3. peso;
  4. queimação;
  5. sensação de algo comprimindo o tórax;
  6. ou simplesmente desconforto difícil de explicar.
Dor cardíaca

Um padrão bastante sugestivo é aquele que aparece durante atividade física ou esforço emocional e melhora quando o esforço é interrompido.

Imagine alguém que consegue caminhar normalmente, mas sente pressão no peito toda vez que sobe uma ladeira ou acelera o passo. Ao parar por alguns minutos, o desconforto desaparece.

Esse padrão merece investigação.

O Ministério da Saúde descreve a angina crônica como desconforto frequentemente desencadeado por esforço ou estresse emocional e que tende a melhorar com repouso. 

A dor precisa ser do lado esquerdo?

Não.

Essa é uma ideia bastante difundida, mas pouco útil.

Local da dor

A dor de origem cardíaca pode ocorrer no centro do peito, à esquerda, de forma difusa ou até ser percebida principalmente em outras regiões.

O desconforto pode irradiar para:

  • um ou ambos os braços;
  • ombros;
  • mandíbula ou pescoço;
  • costas;
  • região superior do abdome.

Também podem ocorrer falta de ar, náusea, suor frio, tontura, fraqueza ou sensação de mal-estar. A diretriz americana de dor torácica inclusive recomenda pensar além da palavra “dor”, porque pressão, aperto e outros desconfortos podem representar sintomas isquêmicos. 

Quando a dor no peito pode significar um infarto?

O infarto geralmente ocorre quando o fluxo de sangue em uma artéria coronária é subitamente reduzido ou interrompido.

Uma das causas mais comuns é a ruptura de uma placa de aterosclerose, seguida pela formação de um coágulo dentro da artéria.

A apresentação pode incluir dor ou pressão torácica, mas também falta de ar, desconforto em braço, ombro, mandíbula, pescoço ou costas, náusea, sudorese e outros sintomas. 

Infarto

Uma diferença importante em relação à angina estável é que, em uma síndrome coronariana aguda, o sintoma pode surgir em repouso, aparecer com esforços cada vez menores, tornar-se mais intenso ou persistir.

Nesse cenário, não é momento de marcar uma consulta para a próxima semana.

É preciso avaliação de urgência.

Quando devo procurar uma emergência?

Uma dor torácica nova, intensa, persistente ou de início súbito, principalmente se associada a falta de ar, suor frio, náusea, desmaio ou sensação importante de mal-estar, deve ser tratada como potencial emergência até que uma causa grave seja afastada.

No Brasil, o SAMU pode ser acionado gratuitamente pelo número 192, 24 horas por dia. O Ministério da Saúde inclui dor no peito de aparecimento súbito e suspeita de infarto entre as situações em que o serviço deve ser acionado. 

SAMU

Também não é recomendável que alguém com sintomas importantes simplesmente dirija sozinho até o hospital.

Em situações potencialmente graves, o atendimento pré-hospitalar permite avaliação inicial e encaminhamento adequado.

Dor em pontada significa que não é o coração?

Não necessariamente.

Certos padrões tornam uma causa coronariana menos provável, mas nenhuma palavra isolada descrevendo a dor é suficiente para excluir doença cardíaca.

Uma dor muito localizada, que varia claramente com determinada posição ou que pode ser reproduzida ao pressionar a parede do tórax, por exemplo, frequentemente sugere origem musculoesquelética.

Mas medicina não funciona como uma tabela em que:

“pontada = não é coração” e “aperto = é coração”.

A avaliação deve considerar o conjunto da história clínica e o risco cardiovascular do paciente.

Dor que piora ao apertar o peito pode ser muscular?

Pode.

A musculatura do tórax, as articulações entre costelas e esterno e outras estruturas da parede torácica são causas muito comuns de dor.

Dores após exercícios, movimentos repetitivos ou determinadas posições frequentemente têm origem musculoesquelética.

A possibilidade aumenta quando o mesmo desconforto pode ser reproduzido diretamente por movimento ou palpação.

Mas existe uma ressalva importante: uma característica sugestiva de dor muscular não deve ser usada isoladamente para ignorar outros sinais preocupantes.

Refluxo pode causar dor parecida com dor cardíaca?

Sim.

Esôfago e coração estão localizados muito próximos e podem produzir sintomas semelhantes.

Refluxo gastroesofágico pode provocar:

  • queimação;
  • dor retroesternal;
  • sensação de pressão;
  • desconforto após refeições;
  • sabor ácido na boca.
Causas comuns de dor toracica

Outras condições digestivas também podem produzir dor na região torácica ou no abdome superior.

O próprio Ministério da Saúde inclui refluxo e outros problemas digestivos entre as possíveis causas não cardíacas de desconforto torácico. 

O problema é que não é seguro assumir que uma dor é refluxo apenas porque o paciente já teve refluxo antes, principalmente quando o padrão mudou ou existem fatores de risco cardiovascular.

Ansiedade pode causar dor no peito?

Sim.

Ansiedade e crises de pânico podem causar sintomas físicos bastante intensos, incluindo dor ou aperto no peito, palpitações, falta de ar, tremores e sensação de medo.

Esses sintomas são reais.

Entretanto, diagnosticar ansiedade como causa da dor exige cuidado.

Principalmente em um primeiro episódio ou em pacientes com risco cardiovascular, pode ser necessário excluir causas orgânicas antes de atribuir o desconforto exclusivamente à ansiedade.

Um erro que devemos evitar é:

“Você está ansioso, então essa dor não pode ser do coração.”

As duas condições inclusive podem coexistir.

Quem tem maior chance de apresentar doença coronariana?

A interpretação de uma dor depende também de quem está sentindo o sintoma.

Uma mesma pressão torácica possui significados diferentes em um jovem sem fatores de risco e em uma pessoa com diabetes, hipertensão, colesterol elevado e tabagismo.

A suspeita de doença coronariana aumenta de acordo com idade, características dos sintomas, presença de fatores de risco e histórico cardiovascular.

Entre os fatores relevantes estão hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, doença renal, histórico familiar de doença cardiovascular precoce e doença aterosclerótica já conhecida.

É por isso que exames não devem ser solicitados simplesmente porque alguém disse “estou com dor no peito”.

A investigação precisa começar pela probabilidade clínica.

Quais exames podem ser necessários?

Não existe um exame único que deva ser feito por toda pessoa com dor torácica.

Em uma situação de urgência, o eletrocardiograma e a dosagem de troponina cardíaca, particularmente troponina de alta sensibilidade, têm papel central na avaliação de possível síndrome coronariana aguda. A diretriz AHA/ACC recomenda troponina cardíaca de alta sensibilidade como biomarcador preferencial para detectar ou excluir lesão miocárdica. 

No contexto ambulatorial, dependendo do risco e da pergunta clínica, podem ser considerados exames funcionais ou de imagem.

Entre eles está a angiotomografia das coronárias, que permite visualizar de forma não invasiva placas e possíveis obstruções.

Investigação

Em pacientes selecionados, outros exames podem ser mais apropriados.

O importante é evitar a lógica de solicitar todos os exames possíveis.

A diretriz de dor torácica ressalta inclusive que pacientes considerados de baixo risco não precisam rotineiramente de investigação cardíaca urgente, enquanto aqueles de risco intermediário são os que geralmente mais se beneficiam de testes adicionais. 

Se aparecer uma obstrução, o que acontece?

Encontrar uma placa na coronária não significa automaticamente realizar angioplastia.

Primeiro precisamos entender: Qual é o grau da obstrução e, principalmente, qual é sua importância clínica?

Dependendo do caso, a investigação pode terminar na angiotomografia.

Em outros pacientes, pode ser indicado um cateterismo cardíaco para avaliação invasiva.

E apenas quando existe indicação de revascularização pode ser realizada uma angioplastia coronária com implantação de stent.

Esse encadeamento é importante porque evita uma ideia equivocada:

Dor no peito → Cateterismo → Angioplastia.

Na realidade, cada etapa depende das informações encontradas na anterior.

E se minha dor vai e volta há meses?

Uma dor recorrente não deve ser automaticamente considerada menos importante.

Se ela surge de maneira previsível durante determinados níveis de esforço e melhora no repouso, por exemplo, pode representar angina estável.

Nesse caso, talvez não exista uma emergência naquele momento, mas existe motivo para avaliação cardiológica programada.

Por outro lado, uma dor que antes surgia apenas durante esforços intensos e começa a aparecer com esforços progressivamente menores, torna-se mais frequente ou passa a ocorrer em repouso representa uma mudança do padrão e merece avaliação mais rápida.

A melhor estratégia começa pela história clínica

Tecnologia mudou profundamente a Cardiologia.

Hoje conseguimos visualizar as coronárias por tomografia, medir o impacto funcional de uma obstrução, enxergar a artéria por dentro e tratar determinadas lesões através de cateteres.

Mas nenhum desses recursos substitui uma boa história clínica.

Quando alguém diz:

“Estou com dor no peito”

a pergunta seguinte não deve ser imediatamente:

“Qual exame vamos pedir?”

Precisamos primeiro entender o que está acontecendo:

A partir dessas respostas, conseguimos escolher a investigação mais adequada.

E essa talvez seja a principal mensagem deste artigo:

Nem toda dor no peito é causada pelo coração, mas uma dor potencialmente cardíaca merece ser reconhecida no momento certo.

Se você apresenta sintomas recorrentes ou possui fatores de risco cardiovascular, uma avaliação pode ajudar a determinar se existe necessidade de investigação específica.

Se o sintoma for novo, intenso, súbito ou associado a sinais de alerta, procure atendimento de urgência.

Dr. Pedro Perillo
Médico Cardiologista
Especialista em Cardiologia e Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista
CRM-GO 20317 | RQE 15.681 | RQE 17.630

Referências Bibliográficas

AHA/ACC et al. — 2021 Guideline for the Evaluation and Diagnosis of Chest Pain. É a principal diretriz específica para avaliação de dor torácica, incluindo estratificação de risco e seleção de exames. 

ACC/AHA/ACEP/NAEMSP/SCAI — 2025 Guideline for the Management of Acute Coronary Syndromes. Atualiza a abordagem das síndromes coronarianas agudas, incluindo infarto e angina instável. 

Ministério da Saúde — Linha de Cuidado da Dor Torácica e SAMU 192. Material brasileiro com orientação ao paciente sobre sinais de alerta e busca de atendimento. 

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