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Dr. Pedro Perillo – Cardiologista Intervencionista em Goiânia – GO

Chegar aos 40 anos costuma provocar uma pergunta bastante comum:

“Está na hora de fazer um check-up do coração?”

Na maioria das pessoas, a resposta é que esse é um bom momento para olhar com mais atenção para o risco cardiovascular.

Mas existe uma diferença importante entre fazer uma avaliação preventiva e simplesmente solicitar uma grande quantidade de exames.

Um bom check-up cardiológico não é uma lista pronta de eletrocardiograma, ecocardiograma, teste ergométrico, Doppler de carótidas e tomografias que todo mundo deveria repetir todos os anos.

Check-up cardiológico

Na verdade, muitas vezes os dados mais importantes estão em coisas muito mais simples:

  • pressão arterial;
  • colesterol;
  • glicemia;
  • tabagismo;
  • peso e composição corporal;
  • atividade física;
  • histórico familiar;
  • alimentação;
  • presença ou ausência de sintomas;
  • doenças já existentes.

A partir dessas informações, podemos estimar o risco cardiovascular individual e então decidir se algum exame adicional realmente acrescenta informação.

Essa é a principal ideia deste artigo: o check-up deve ser individualizado.

Check-up não é apenas fazer exames

Dr. Pedro Perillo — Cardiologista e Cardiologista Intervencionista em Goiânia

Minha atuação envolve tanto a prevenção e avaliação clínica cardiovascular quanto o diagnóstico e tratamento da doença coronariana através da Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista.

Realizei minha formação em Cardiologia e posteriormente em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista pela Universidade Federal de São Paulo — UNIFESP, onde também concluí meu Mestrado em Cardiologia.

Sou especialista titulado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e pela Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI).

Dr Pedro Perillo

Ao longo da minha formação e atuação profissional, já realizei mais de 5.000 procedimentos em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, incluindo cateterismos, angioplastias e procedimentos cardiovasculares de diferentes níveis de complexidade.

Essa experiência tratando pacientes que já desenvolveram doença cardiovascular reforça algo que considero particularmente importante na prevenção:

o melhor momento para cuidar das artérias é antes que seja necessário tratá-las dentro de uma sala de Hemodinâmica.

Por isso, no check-up, meu objetivo não é solicitar o maior número possível de exames.

É identificar quem apresenta risco aumentado, quais fatores precisam ser modificados e se existe alguma pergunta clínica que justifique investigação adicional.

Por que os 40 anos são um momento importante?

Não existe uma “virada biológica” exatamente no aniversário de 40 anos.

O risco cardiovascular aumenta progressivamente ao longo da vida.

Mas a partir dessa faixa etária, a avaliação estruturada do risco passa a ter especial importância, porque fatores como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e aterosclerose podem permanecer silenciosos durante anos.

As recomendações atuais de prevenção utilizam justamente a combinação de idade e fatores clínicos para estimar a probabilidade de eventos cardiovasculares e orientar decisões preventivas. A diretriz americana de dislipidemia publicada em 2026, por exemplo, utiliza estimativas contemporâneas de risco cardiovascular em adultos e incorpora fatores adicionais e, em pacientes selecionados, escore de cálcio para refinar essa avaliação. 

Portanto, eu não gosto da ideia:

“Tenho 40 anos, então preciso fazer dez exames.”

Prefiro:

“Tenho 40 anos. Qual é o meu risco cardiovascular e existe algo que posso fazer hoje para evitar problemas no futuro?”

Essa é uma pergunta muito mais útil.

O primeiro exame do coração talvez seja o mais simples: medir a pressão

Hipertensão é um dos principais fatores de risco cardiovascular e frequentemente não produz sintomas.

É perfeitamente possível apresentar pressão elevada durante anos sem perceber.

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de hipertensão do Ministério da Saúde, atualizado em 2026, recomenda rastreamento anual da pressão arterial em adultos. 

Hipertensão

Por isso, um check-up cardiovascular deve obrigatoriamente incluir uma medida adequada da pressão.

Quando existe dúvida, medidas realizadas fora do consultório, como MAPA ou monitorização residencial da pressão arterial, podem ajudar a confirmar o diagnóstico em pacientes selecionados.

O Brasil inclusive incorporou a monitorização residencial da pressão arterial ao SUS para investigação de adultos com suspeita de hipertensão. 

Colesterol: não basta olhar apenas se está “dentro da referência”

Outro ponto central é o perfil lipídico.

Normalmente são avaliados:

  • colesterol total;
  • LDL;
  • HDL;
  • triglicerídeos.

Mas existe um erro comum: interpretar o LDL apenas comparando o número com o intervalo de referência do laboratório.

O valor desejável de LDL depende do risco cardiovascular daquela pessoa.

Um LDL aceitável para alguém de baixo risco pode estar muito acima do objetivo recomendado para alguém que já apresenta aterosclerose, diabetes, doença renal ou risco cardiovascular elevado.

Colesterol

A diretriz AHA/ACC de dislipidemia de 2026 reforçou justamente uma abordagem baseada no risco global e voltou a enfatizar metas de LDL e colesterol não-HDL de acordo com o nível de risco. 

Portanto, no check-up, não perguntamos simplesmente:

“Meu colesterol está alto?”

Perguntamos:

“Meu colesterol está adequado para o meu risco?”

E a lipoproteína(a)?

Esse é um exame que ganha cada vez mais espaço nas consultas de prevenção.

A lipoproteína(a), ou Lp(a), é determinada principalmente geneticamente e está associada a maior risco de doença cardiovascular aterosclerótica.

A diretriz americana de dislipidemia de 2026 recomenda que a Lp(a) seja medida pelo menos uma vez para identificação de indivíduos com risco aumentado. 

Ela pode ser particularmente interessante em pessoas com:

  • histórico familiar importante de infarto precoce;
  • eventos cardiovasculares aparentemente desproporcionais aos fatores de risco tradicionais;
  • aterosclerose em idade jovem.

Isso não significa que todo exame precisa ser repetido todos os anos.

Justamente por ter forte determinação genética, a informação da Lp(a) costuma ter uma lógica diferente daquela do colesterol habitual.

Glicemia e diabetes também fazem parte do coração

Diabetes é um dos principais fatores de risco para doença cardiovascular.

Por isso, dependendo da idade e dos fatores de risco, o check-up pode incluir:

  • glicemia de jejum;
  • hemoglobina glicada.

O Ministério da Saúde destaca maior risco de diabetes em pessoas com condições como hipertensão, alteração do colesterol, sobrepeso, histórico familiar e doença renal, entre outras. 

A avaliação metabólica não deve ser vista como algo separado da Cardiologia.

Cuidar da glicemia também é cuidar das artérias.

Todo mundo depois dos 40 precisa fazer eletrocardiograma?

Não necessariamente.

O eletrocardiograma é um exame simples, rápido e extremamente útil quando existe uma indicação.

Pode identificar alterações do ritmo cardíaco, distúrbios de condução, sinais de sobrecarga e outras informações.

Mas existe uma diferença entre usar um exame em um contexto clínico e utilizá-lo como rastreamento indiscriminado.

Em adultos assintomáticos de baixo risco, evidências não demonstram benefício de realizar rotineiramente ECG ou teste ergométrico apenas para rastrear doença cardiovascular, e exames indiscriminados podem gerar achados incidentais e investigações subsequentes desnecessárias. 

Ou seja:

não é porque um exame é simples que ele precisa obrigatoriamente ser feito em todas as pessoas todos os anos.

E o teste ergométrico?

Essa talvez seja uma das maiores associações populares com “check-up cardiológico”.

A pessoa chega ao consultório sem sintomas e diz:

“Doutor, quero fazer aquela esteira para saber se está tudo bem.”

O teste ergométrico é muito útil quando existe uma pergunta clínica apropriada.

exames

Pode avaliar capacidade funcional, resposta da pressão ao exercício, comportamento da frequência cardíaca, arritmias e, em determinados contextos, sinais de isquemia.

Mas ele não é uma garantia de que uma pessoa não terá infarto.

E fazer testes de esforço indiscriminadamente em pessoas assintomáticas e de baixo risco não é sinônimo de prevenção de melhor qualidade. 

O exame deve ser solicitado quando existe uma razão para isso.

Preciso fazer ecocardiograma todos os anos?

Também não existe essa regra.

O ecocardiograma mostra a estrutura e o funcionamento do coração.

Permite avaliar:

  • função do músculo cardíaco;
  • válvulas;
  • dimensões das câmaras;
  • espessura das paredes;
  • outras alterações estruturais.

É um exame extremamente importante quando existem sintomas, sopros, alterações eletrocardiográficas, hipertensão com determinadas repercussões ou doença cardíaca conhecida.

Mas isso é diferente de dizer que todo adulto saudável precisa repetir um ecocardiograma anualmente.

Um exame deve existir para responder uma pergunta.

E o escore de cálcio?

Aqui começa uma parte bastante interessante da prevenção cardiovascular moderna.

O escore de cálcio coronariano é realizado através de tomografia, normalmente sem contraste, e quantifica cálcio presente nas artérias coronárias.

Ele funciona como um marcador da quantidade de aterosclerose calcificada.

Não é um exame obrigatório para todas as pessoas depois dos 40 anos.

escore de calcio

Mas pode ser particularmente útil quando a avaliação convencional deixa uma dúvida importante sobre o risco cardiovascular e essa informação pode mudar uma decisão terapêutica.

A nova diretriz americana de dislipidemia de 2026 destaca o uso seletivo do escore de cálcio para refinar a avaliação de risco e cita seu uso em homens a partir dos 40 anos e mulheres a partir dos 45 anos em contextos apropriados. 

Isso não significa:

“Completei 40 anos, preciso de uma tomografia.”

Significa:

“Em alguns pacientes dessa faixa etária, o exame pode responder uma dúvida que realmente muda a prevenção.”

Escore de cálcio e angiotomografia são a mesma coisa?

Não.

Essa diferença merece atenção.

O escore de cálcio mede calcificação coronariana.

A angiotomografia das coronárias utiliza contraste para visualizar diretamente as artérias e identificar placas, inclusive placas que não são predominantemente calcificadas, além de estimar possíveis obstruções.

São exames diferentes e com objetivos diferentes.

Tenho histórico familiar de infarto. Isso muda meu check-up?

Pode mudar bastante.

Precisamos saber:

  • quem teve o evento;
  • com qual idade;
  • quantos familiares foram afetados;
  • quais outros fatores de risco existem.

Um infarto em idade avançada tem significado diferente de múltiplos familiares apresentando doença coronariana precocemente.

História familiar de doença cardiovascular prematura é reconhecida como um fator que pode aumentar a percepção de risco e influenciar decisões preventivas. 

Nesses pacientes, a avaliação pode incluir maior atenção a colesterol, Lp(a) e, dependendo do cenário, exames complementares selecionados.

Então quais exames fazem parte de um check-up cardiológico?

A resposta correta é:

depende da pessoa.

Mas uma avaliação frequentemente começa por algo semelhante a:

Avaliação clínica

  • sintomas;
  • pressão arterial;
  • frequência cardíaca;
  • peso e composição corporal;
  • histórico familiar;
  • alimentação;
  • atividade física;
  • tabagismo;
  • consumo de álcool;
  • qualidade do sono;
  • doenças e medicamentos existentes.

Exames laboratoriais selecionados

Dependendo do caso:

  • colesterol e frações;
  • triglicerídeos;
  • glicemia;
  • hemoglobina glicada;
  • função renal;
  • outros exames indicados pelo contexto clínico;
  • Lp(a), em situações apropriadas ou conforme estratégia de avaliação de risco.

Exames cardiológicos complementares

Apenas quando houver indicação, podem entrar:

  • eletrocardiograma;
  • MAPA;
  • Holter;
  • teste ergométrico;
  • ecocardiograma;
  • escore de cálcio;
  • angiotomografia das coronárias;
  • outros métodos de investigação.

Essa sequência é importante.

Primeiro entendemos o paciente.

Depois escolhemos o exame.

Não o contrário.

Fazer mais exames significa estar mais protegido?

Não necessariamente.

Essa talvez seja a parte mais contraintuitiva do check-up.

Um exame pode encontrar alterações que não têm importância clínica, gerar ansiedade e levar a outros testes ou procedimentos que não trariam benefício ao paciente.

Por isso, rastreamento excessivo também pode ter consequências.

Em adultos assintomáticos de baixo risco, por exemplo, a USPSTF recomenda contra o uso de ECG de repouso ou de exercício como rastreamento de eventos cardiovasculares, justamente porque os potenciais danos da investigação subsequente podem superar o benefício. 

Uma boa Medicina Preventiva não procura o maior número possível de alterações.

Procura aquelas que realmente importam.

O que é mais importante do que qualquer exame?

Controlar fatores de risco.

Não existe tomografia capaz de compensar:

  • tabagismo;
  • hipertensão não tratada;
  • diabetes descontrolado;
  • colesterol inadequadamente tratado;
  • sedentarismo;
  • alimentação ruim.
prevencao cardiovascular

A prevenção cardiovascular continua baseada sobretudo em estilo de vida e tratamento apropriado dos fatores de risco. A AHA ressalta alimentação saudável, atividade física regular, abandono do tabagismo e manejo de pressão, colesterol e diabetes como pilares da prevenção. 

O Ministério da Saúde também enfatiza atividade física, controle de peso, alimentação adequada, abandono do cigarro e controle do diabetes entre as medidas preventivas cardiovasculares. 

Afinal, preciso fazer um check-up depois dos 40?

Eu inverteria a pergunta.

Em vez de:

“Quais exames uma pessoa de 40 anos precisa fazer?”

pergunte:

“Qual é o meu risco cardiovascular e o que posso fazer para reduzi-lo?”

Essa é a essência de um bom check-up cardiológico.

Para algumas pessoas, a resposta estará praticamente toda em uma boa consulta, medida da pressão e exames laboratoriais.

Para outras, o histórico familiar ou os fatores de risco justificarão uma investigação maior.

E alguns pacientes realmente poderão se beneficiar de exames como escore de cálcio, teste funcional ou angiotomografia.

O check-up ideal não é o que tem mais exames. É aquele que fornece as informações necessárias para tomar melhores decisões sobre o futuro da sua saúde cardiovascular.

Se você chegou aos 40 anos, apresenta fatores de risco cardiovascular ou passou muito tempo sem acompanhamento, uma avaliação individualizada pode ajudar a entender onde você está hoje e quais medidas realmente podem reduzir seu risco nos próximos anos.

Dr. Pedro Perillo
Médico Cardiologista
Especialista em Cardiologia e Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista
CRM-GO 20317 | RQE 15.681 | RQE 17.630

Referências Bibliográficas

American Heart Association / American College of Cardiology — 2026 Guideline on the Management of Dyslipidemia. 

AHA/ACC — Guideline on the Primary Prevention of Cardiovascular Disease. 

Ministério da Saúde — PCDT de Hipertensão Arterial Sistêmica, 2026.

USPSTF — Screening With Electrocardiography. 

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